03 Novembro 2009

Hoje o tempo vai mudar...

Atingiu-me como um murro no estômago quando vi o teu sorriso desenhado em pixeis no centro do ecrâ do computador.

Vou fumar um cigarro e beber uma cerveja a ver se tiro este sabor da boca...

Goodbye

20 Agosto 2009

o caminho certo

O baixo, a concertina, o ódio, o espectro, a rua, a canção do segredo, a morte, o passado, as correntes, a felicidade, o ouro, os olhos, tu não tens de ver, mudar, a crista, o mar, um rei, o sangue, antidepressivos, o esqueleto, a cruz, a gosma, o sentido, o tacto, a água, o passeio, a treta, a maçã, os pés, o coiso, a tampa do iogurte, a miseria, o amor, os pulmões, os miscarros, o baixo, a tecla, o jogo, merda, sexo, preto, mentira, mensagem, turvo, branco, sorriso, sujo, pêssego, suícidio, vazio, 2001, kubric, o lado direito, os fluídos corporais, o sangue, a gripe, a china, os estados unidos, o dinheiro, as pessoas, che, medicina, cristo, arbusto, o brinquedo partido, a boneca, a gaiola, o pássaro que morreu de saudade, o cancro, o enfisema do pulmão, a limitação do fluxo aéreo expiratório, o viver, a voz, a crise, o riso, a dívida, meu amor, canção, mundo, palavras, cartão, embalar, berço, criança, esperança, a mesma estrutura de uma árvores, as raízes, a cisma, o vaticano, prata, chumbo, pena, cisma, crise, crista, medo, raiva, dor, impotência, lista, contrução cívil, engenheiro, prisão, doença sem cura, papapapapapapapapapapapapapapa, desculpa, mordaz, cinismo, pequeno, portugal, mundo, o mundo visto da lua, as pretas, diamante, óleo, garrafa, fogo, presa, balcão, fractura, cabeça, mandíbula, carena, tosse, tabaco, ouvir, estás preso, dinheiro, televisão, aniversário, abelhas, contribuição, gratuíto, ovelha, pastor, graga, polónia, campo de concentração, barricada, bala, um sentido, fragging, puta, prostituta, chá, droga, canhão, sorriso, amanhã, promessa, engano, justiça, preocupaçao, a minha borboleta, o chão, a queda, o prejuízo, a recuperação, a carne, a inconsciência, um pé fora da cama, ciclismo, massagem, sucesso, casamento, traição, eiffel, ponte, douro, afogamento, crises, ribeira, guna, inveja, oportunidade, coração, grandes vasos, dedos, tambor, engurgitamento, fama, amor, estrada, pulga, história, sol, lume, alheiras com músicos, bacalhau, monte velho, vidago, água, mestrado, vergonha, morte, pop. urina, moscas, foder, traição. desejo empacotado, racional, coração, melhor, pior, dignidade é diferente de digno, palavra, se eu não for capaz, capataz, açucar e café, fotografia, jardim, precioso, artigo, metrópole, risco, felicidade, manipulação, aceitação, mentira, desejo, promessa, vermelho, terraço, falso graal, mãe, escuro, rabelo, corpo, traição, luz, mal, triste, mal, violação, aproveitamento, pecado, redenção, incoerência, corpo, insónia, digo... o que é feito de nós?

16 Agosto 2009

A Armadilha

Mesmo estando preso entre 2 paredes de tijolos, ainda comprimo o meu peito contra a sua dureza e de certa forma recordo-me de respirar.

Ao mesmo tempo ainda me vão chegando, como ondas de rádio, umas ténues reverberações de uma parte incerta...

Será que deixei como migalhas, algumas peças dispersas de amor pelo mundo, em vez desta corrente limão onde flutuo, peças suficientes para que uns quantos caçadores de mitos as persigam como detectives para virem dar comigo aqui?

Não sei, a armadilha deixa-me apenas entrever uma réstia de sol bem lá no alto, sem eu saber se o faz por compaixão ou por uma secreta reserva de ódio que pede emprestado um pouco de luz para com ela aumentar as minhas sombras.

Deixa-me continuar a gravar nas paredes uma linha de giz por cada dia que passa, sorrindo da ironia que é ter uma chave presa numa gaiola, de certa forma neste outono, se ainda há folhas perenes que caem sobre mim, é porque me prometem não uma réstia de esperança, mas uma ténue centelha de calor...

Hoje estou com um pouco menos de frio, mas continuo com medo de amanhã...

31 Julho 2009

Tu não tens de mudar

A ironia que se escapa dos meus dedos arrasta-se pela rua fora como seu eu fosse um cão escapado ao dono e ela a minha trela.

E como cão vou resmungando entre latidos uma coisa tão semelhante à verdade que passaria por esta, não fosse a sua condição inverossímil de se encontrar arrastada pelo chão como uma trela.

Assim não é verdade é apenas uma coisa arrastada à qual se agarra o pó e a merda de outros cães.

E eu não ambiciono mais nada do que ser o cão que se escapa ao dono arrastando qualquer coisa pelo chão para toda a gente ver.

07 Maio 2009

Lady Of The Flowers

Levaste-me pela mão até ao jardim, e pela mão me conduziste até a um banco resguardado por uma oliveira centenária, onde falaríamos a coberto do sol.

À parte de uma frase que tinha tatuado na parte de trás do meu cérebro não me apetecia dizer mais nada. Acho que fizeste um comentário qualquer sobre como eu me dera ao trabalho de desfazer a barba, e de certa forma acaricias-te a maciez de veludo da minha pele até me arrepiares todo quando dirigiste a ponta dos teus dedos até aos meus lábios...mas na verdade o que era importante ali, o que sublinhavas sem dizer uma palavra, era a tua estranheza por me ver a mim calado quando eu era, entre os dois, aquele que tinha mais medo do silêncio e mais fazia para o encher de ruídos e coisas vagas que me faziam lembrar dos dias.

Deixa que agora que o tempo passa sobre esses dias de sol, que me atreva a colocar uma legenda sobre esse momento, ditado pela minha ficção tão própria que se apropria do tempo e faz dele uma rosca que se entrelaça sem que perceba por onde começa ou acaba.

Dizia eu talvez, enquanto um raio de sol perfurava as pontiagudas folhas da oliveira e me cegava, que os dias faziam muito mais sentido quando ainda era capaz de te trazer um pouco da praia até ti, na altura em que dizias por entre beijos que eu te sabia a sal e a areia, e que se fechasses os olhos podias sentir-te ali, no pedaço de paraíso que eu pedira emprestado para te dar.

Agora "que todas as palavras estavam gastas" já não as usava, e bastava-te olhar bem no fundo dos meus olhos para ver que se as não dizia me bastava sublinhar, como notas, uns quantos símbolos desgarrados que traduzidos num piano bastariam para um dedilhar de teclas rápidas, que se destina a deixar uma breve impressão de ruído que se traduz mais por um eco tardio do que por uma atenção redobrada ao gesto.

As gaiolas douradas que a nossa inocência partiu e reduziu a uma resma de arames retorcidos foram as mesmas que ainda antes de se reconstruírem tiveram tempo para se afiar nas arestas da nossa própria ironia e desilusão e ferirem fatalmente os nossos corpos tão frágeis. Recordo-me agora do momento preciso em que nos trespassaram, arrastando com elas e extinguindo para sempre o calor que nos restava quando sob a lua fazíamos amor confiando na boa estrela o nosso futuro.

A partir dalí, meu amor, já não me restaram palavras, mas só este som que agoro confio ás flores das azeitonas que ainda estão por nascer.
Quem mais tarde provar este azeite dirá que aquele grau de acidez a mais se deveu a um ano invulgarmente quente. E apenas nós saberemos que o que nos amarga os dias, não é o tempo ou a falta dele, mas o sangue que parou quando o nosso coração deixou de bater ao mesmo ritmo.


"she stole the keys to my house... and then she locked herself out..."

02 Abril 2009

cover sleeve

Cover Sleeve - Coldfinger

22 Fevereiro 2009

Black Star

Todas as minhas noites são carmim...

Mesmo todas aquelas em que o sono não me apanha porque me escondo dele nas vielas da memória e esquecimento.
E aí sonho que não sou capaz de dormir...
E fico encurralado num canto, esquecido de mim...

Vem-me à ideia todas as noites violentas, todas as noites em branco, todas as noites impossíveis em que desenhava o céu com a mesma perícia com que acariciava a tua pele perfeita, desenhando o teu contorno contra o colchão, projectando-te nas paredes, imaginando-te nua de encontro a mim...

No intervalo dos dias, ainda me lembro como me sabe a tua pele a sal e a areia quando a provava sobre a lua... como brincávamos por entre copos de vinho tinto provando os taninos na ponta da língua que sugávamos como se fosse uma nascente de água perdida no meio do deserto...

Ainda me lembro, sem me lembrar dos meus dias, de como te encurralava de encontro a uma parede com o meu corpo, para te olhar bem no fundo dos teus olhos e acender como uma faísca o mais intenso prazer... lembro-me desse intervalo de tempo em que os sons se detinham lá fora e te ficava a olhar sob o luar, bem no fundo dos olhos, detendo-me como se me encontrasse à beira do precipício querendo mais do que tudo dar o passo em frente em direcção ao vazio...

E o vazio transcorria tão rápido... encontrava-te sempre do outro lado do espelho para amparar a minha queda com a maciez dos teus lábios quando se uniam aos meus... lembro-me de os provar suavemente como uma carícia, tão irreais como a única luz que nos iluminava, até ao ponto de os querer ainda mais, ao ponto de os morder, ao ponto de os entalar entre os meus dentes quase até fazer ferida, ao ponto de os provar com a minha língua e os empurrar contra o céu da boca, ao ponto de fazeres o mesmo com os meus, ao ponto de misturarmos a nossa saliva, ao ponto de provarmos o sabor do tabaco da boca um do outro, ao ponto de... ao ponto de não me contentar com isso, e de querer mais...
Quando tinha a certeza que eles estavam alí brincava com a incerteza, ameaçando sem nunca concretizar a proeza de um beijo... quando esperavas que eles te tocassem desviavam se no último instante em direcção ao pescoço, descendo sobre os ombros, detendo-se um pouco para novamente encontrar os teus lábios ainda mais sôfregos do que anteriormente...
E sem qualquer pudor deixava as minhas mãos correrem livres sobre o teu corpo, acariciando a tua pele e saboreando o relevo...

Não resistia mais... não resistia mesmo quando traçava o perfil dos teus seios ou quando descia suavemente sobre a tua barriga tocando-te apenas com a ponta dos dedos... não resistia quando as minhas mão passavam para as tuas coxas e continuavam a descer ao longo das tuas pernas... não resistia a todas os pormenores, a todas as histórias que a tua pele me segredava baixinho, não resistia quando se arrepiava ao meu toque e quando sentia na tua respiração ofegante o princípio do prazer...

E quando não resistia mais... deitava-te sobre qualquer coisa, seria o chão talvez, enquanto deixava que o meu corpo procurasse o teu...

E sem deixar de olhar bem no fundo dos teus olhos, porque me traziam sempre a mesma vertigem de saltar no vazio, deixava que os nossos corpos compassados marcassem o ritmo mais ou menos certo dos nossos corações agora tão próximos, enquanto as nossas bacias encaixadas se íam acomodando docemente, violentamente, apaixonadamente até deles nada mais restar que uma perfeita simbiose, uma chave mágica capaz de nos dar algo muito maior que o prazer...

No final ríamos ambos da cumplicidade que encontramos quando unimos os nossos corpos, entrecortando a nossa respiração ofegante com beijos calmos...

E entre nós sempre a mesma luz e o mesmo vazio, e o mesmo horizonte indefínido do que guardamos lá fora... há sempre tanta coisa que guardamos lá fora...

E enquanto filtramos a verdade em múltiplos papéis de conveniência, deixamos de ver tudo aquilo que nos colocou alí...

Os intervalos fazem-se das sombras que guardamos das noites que passamos juntos, e nada nos compromete tanto com a realidade como a nossa pele marcada pelo ferro em brasa da saudade... e por entre uma névoa dífusa de irrealidade empacotamos o vivido numa velha caixa de fotografias que guardamos na parte de trás da nossa memória...

Só quando o sono se esquece de chegar de mansinho pela noite, e nos deixa entrever a lua por entre camadas de esquecimento, é que recordamos de novo os corpos entrelaçados pelo desejo e nos atrevemos a desenhá-los sobre a esteira que fica, como um rasto no tempo, formada por nada mais que ar, poeira e luar...

18 Fevereiro 2009

Light Years

Nunca tinha entrado naquele bar durante o dia, mas não fosse pelo relógio de pulso que insistentemente o lembrava que seriam horas de o sol estar no seu ponto mais alto e não teria dado pelas diferenças entre aquele espaço e o que frequentava durante as noites, já lá ía uma semana.

A luz nada lhe dizia naquele espaço subterrâneo que se escondia dela atrás de um L artístico onde tinham encaixado o bar, reservando a única iluminação para os vários focos de luz que alternavam sequencialmente entre o amarelo, vermelho, azul e bordeaux.

Não seria por ser de dia que os mesmos bancos brancos alterariam as suas sombras, dando outra profundidade à superfície lisa estampada.
De igual modo, a companhia que tinha naquele instante, não adquiriu, apesar da hora, uma qualquer sombra no seu carácter continuando a ser a mesma planilha em branco onde o tédio e o tabaco se misturavam por entre o vapor do café.
A companhia era simétrica a si. Mexia-se do mesmo modo, agarrando a pequena chávena na mesma altura em que ele o fazia. Do mesmo modo copiava-lhe o aspecto. A roupa que traziam era igual, como igual era o penteado ou a linha azul que definia a sua mandíbula escanhoada naquela manhã por uma lâmina consciente.

A sua companhia encontrava-se do outro lado da sala, num enorme espelho que ocupava toda a parede leste perpendicular ao bar.

Sabia que o seu lado é que era o verdadeiro e o outro apenas o reflexo. Foram vários os dias que lutou por descobrir se a alma que imaginava a sua consciência habitava neste ou naquele corpo. A resposta viera-lhe como sempre do tempo. O seu relógio avançava uma fracção de segundo mais rápida que o seu reflexo, e por ser do seu lado o primeiro instante, seria ali também que se encontrava a verdade.

De tanto se concentrar no espelho, nas várias tentativas de se lhe antecipar copiando o mecanismo do seu relógio de pulso, não deu conta que ao seu lado se sentava ela. Apercebeu-se que ela estava alí mais pelo reflexo que viu à sua frente do que pelo toque quente que sentia na sua mão esquerda um pouco por baixo do seu relógio de pulso.

E então aconteceu.

Ela estalou os dedos e o tempo parou.
De repente a imagem no espelho e ele eram um só, vendo como num aquário todo o ambiente do bar mas sem pertencer àquele espaço.

Quando o seu reflexo desapareceu e o que lhe restou no olhar para o aquário eram coisas que nada lhe diziam, já nada lhe interessou para além daquela que tinha inventado a magia.

Pediu-lhe: "és capaz de transportar os néons para aqui?"
Sem uma palavra a servir de intermediário ou de entreposto entre si e a realidade, as luzes estavam deste lado.

"E agora podes descer um pouco a luz?"
"E agora podes trazer para aqui o mar?"
E tudo se cumpriu.

"E agora podes deixar-me ser eu?"
Aí ela sorriu e apontou-me para as mãos dizendo: "Arriscas-te a traçar o caminho? Eu serei o teu mapa."
E rodando sobre si descobriu as costas deixando cair um manto de veludo vermelho no qual ele não tinha reparado.

Os seus olhos bastaram-lhe apenas para traçar todo o espaço que se entrepunha entre a sua pele e a dela, e quando a encontrou, cegaram.
No momento em que os seus dedos lhe tocaram no pescoço, mesmo sem poder ver, adivinhou que os olhos dela também se fecharam.

Deslizou tão lentamente como conseguiu pelo seu pescoço saboreando aquela maciez e calor com a mesma excitação de um recém-nascido que descobre pela primeira vez o alimento no seio materno.
Rodeou-lhe os ombros perfeitamente esféricos até se esquecer de si próprio ao ponto de ser apenas ele concentrado no ponto de contacto.
Deteve-se um instante e percebeu que o caminho se abria docemente e sem esforço marcado aqui e ali por pontos que tardou a perceber o que seriam...
Só quando ia a meio caminho das costas é que percebeu que a única maneira de reescrever o caminho era encontrando esses pontos como marcos na estrada, e seria através de um astrolábio muito próprio, capaz de ler o prazer dela espelhado no céu, que os encontraria...

Cada centímetro quadrado de pele se descobria assim como território virgem intocado pelo homem e reverbando de prazer...
Pedia-lhe mais aquele corpo, como o seu... e deu por sí rodeando o pescoço tão docemente como conseguiu até lhe encontrar ao fim de uma mandíbula perfeita os seus lábios carnudos...

Já não seria pelo mapa que prosseguia, mas por um maior instinto, uma maior certeza em si e nos outros, no destino e nos corpos, no prazer e no pecado...

E desse modo, já não lhe bastavam aquelas mãos, tão insignificantes perante tal templo, mas sim todo o seu corpo penitente, crente na verdade e no processo...

Firme, com uma convicção que não julgava ter, segurou-a pelos ombros e rodou-a até estar de frente para si... sem nada dizer uniu os seus lábios aos dela sedento daquele líquido fundamental de que se fazem os sonhos...

Deitou-a então sobre a manta de veludo vermelho que lhe acabou de despir e fizeram amor até que todas as luzes, como todas as estrelas, se extinguiram...


"E agora podes perdoar o que fiz?"
Ela desviou o olhar e apontou em frente para o espelho que afinal nunca tinha deixado de estar ali.
Ele segiu com o olhar o seu dedo para descobrir que do outro lado já não havia reflexo...

16 Fevereiro 2009

Fire Flies and Empty Skies

Fui ver o "Estranho caso de Benjamin Button" por aquilo que um grande amigo meu me citava em frente a um bife já conhecido sem que encontre o seu melhor tempero nessa rotina de certeza de que sempre estará ali, igualmente saboroso, cedendo à faca como nós cedemos às conversas , também elas habituais, e estas, tão saborosas como o bife que engolimos por entre garfadas de arroz.

A frase, porque também eu tive a oportunidade de a ouvir, dizia: "a vida é feita de oportunidades, mesmo aquelas que desperdiçamos".

Não sei se a pretexto de uma maturidade que tarda em chegar, ou se é por qualquer outro motivo, mas encontro nesta minha ânsia por descobrir os artigos fundamentais da minha constituição uma justificação perfeitamente válida para essa frase, ainda hoje a ecoar nos meus ouvidos como uma bonita canção em loop capaz de destronar a vida do seu trono de monotonia convidando-a para vir valsar com o risco, com os limites conhecidos da existência.

Mas porque a ânsia reside no processo, mais do que na própria resolução, encontro-a cada vez mais dispersa, e porque não incompleta, necessitando de um contra apoio para se sustentar (n)a minha leveza de ser.

Recordando esse mesmo amigo penso rotundamente na morte e no mérito como faces opostas de uma mesma moeda.
Quando morrer quero olhar para trás para o mérito de ter aproveitado as oportunidades correctas?
Não é possível porque tudo se resume às verdades incompletas que norteiam a minha vida, por todas as opções conscientes, ou inconscientes, que se conjugam para me levar a uma oportunidade ou à falta delas...
E como tal é tão inútil, inútil como esvaziar um mar com um balde, pensar que escolho oportunidades quando são elas que divertidas, esvoaçam em meu redor como pequenas abelhas, tão dispostas a permitir-me apanhá-las como a ferrarem-me com o seu pequeno aguilhão marcando indelevelmente o meu tecido do ser.
E não o fazem por maldade, mas porque é essa a sua natureza, a de serem doces ou amargas, perfeitas ou violentas, morrendo ou gerando outras num perpétuo corropio que torna a vida merecedora de ser vivida.

Não sei a quantidade de abelhas que me ferraram, as vezes que tiveram que morrer e gerar outras, as tantas outras vezes que preferiram pousar na minha pele e aproveitar a minha paralísia para me acariciarem a pele passeando sobre ela, para te encontrar ali, naquela praia àquela hora.

Mas sei que na verdade, nem me procupei com elas, com o seu destino presente, passado e futuro, deixei-me estar imóvel, fechando os olhos e permitindo que a minha pele se abrisse de igual modo às carícias ou ao picar... e a única recompensa que pedi, ao ser verdadeiro, ao deixar-me fluir entre elas como seu igual, foi um sorriso prévio que, sem antever o que aí vinha, encarando-o de igual modo, deixou passar sobre mim mim uma corrente de vontade capaz de gerar vida.

E aí despertei e senti.

Porque é na ausência de medo que se acha a virtude, a nossa verdadeira capacidade para ser humano.

Porque deixei fluir a verdade encontrei também em mim a verdade... a capacidade de poder sentir...

Quem nunca a perdeu, como outros, como todos aqueles que a desprezam e a tomam como certa, não compreendem que a recompensa não está à superfície da pele mas sim sob ela... na capacidade que a verdade tem em quebrar uma rocha empedernida em que se tornou o nosso coração, explodindo em cor.
Quem nunca sentiu no seu peito uma máquina destinada exclusivamente a bombear um líquido vermelho e a manter a vida, não percebe que na verdade se encontra a vida, as 21 gramas que perdemos ao morrer, o exacto peso da nossa alma.

No dia seguinte vi o Bowling for Columbine e o Fahrenheit 9|11...
No meio da monumentalidade da cena, na insignificância que é a minha vida, o momento mais alto foi a lágrima que pude deixar, não por mim mas pelos outros.

Não quero agradecer te a verdade, ela está em mim.
Obrigado apenas por me tirares o medo.

14 Fevereiro 2009

fade...

...e debaixo dos seus pés estendia-se a toda a distância, o pontão de pedra que outrora tinham erguido para proteger a barra das tempestades mais fortes...

outrora já se teria esquecido do mar, ou eventualmente do que ele representava para si, por todas as perguntas que lhe tinha lançado anteriormente sem que na volta não recebesse na sua cara o gosto salgado da água ou da nortada, que ali, sempre se fazia sentir.

num outro tempo o mar já não significava nada, nada lhe trazia à excepção de contas de vidro ou tábuas apodrecidas que jaziam enterradas por sargaços e ele apenas o imaginava ali de uma janela que estava tão distante da água como ele se encontrava de si próprio

noutras alturas porém, o mar já significava algo, era como uma coisa viva que mexia dentro de si, à superfície espelhando o céu e sob ela todo um mundo que pulsava e vivia alheado de tudo o que era mundano

e ao mesmo tempo tudo se juntava, o possível e o provável, do mesmo modo que se juntavam sob ele todas as pedras daquele pontão... e abatendo-se sobre elas, vagas sucessivas de ondas que representavam outras tantas certezas

ele caminhava sobre elas, descalço pois claro. escorregava aqui ou ali, mas erguia-se sempre. e à sua frente todo um pontão de pedras escorregadias que tinham encontrado no seu caos o ponto certo de equilíbrio para se manterem à tona...

àquela hora tardia não contava com mais companhia do que a sua própria incerteza sobre as coisas deste e do outro mundo... enquanto a praia desaparecia sob a noite, cada passo que dava em frente, para onde ele não o sabia, transformava-o num gigante de areia que lentamente se entranhava por entre as pedras que pisava, deslizando suavemente, docemente, por entre os intervalos que se abriam convidativos entre os grandes blocos de granito negros que despontavam no pontão...

e porque a natureza da areia é precisamente essa, a de ser simplesmente doce e suave como a pele... e de ser como esta dúctil que chegue para se adaptar aos contornos, não se importou com as arestas, pois estas já não o podiam cortar, não se importou com os vértices dos cubos monstruosos das construções pois já não o podiam trespassar...

e ele bem que pediu que lhe doesse todo esse contacto, que o punissem ou o esmagassem sobre a sua inevitabilidade de estrutura contra o mar... mas não... enquanto deslizava por entre fendas, como areia vertida numa ampulheta adaptou-se aos contornos encontrando no granito áspero algo de tão maternal como uma carícia...

e no último instante ainda foi o aroma a pêssego que o ligou à terra...